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7 obras de arte imperdíveis (e gratuitas) para apreciar em Buenos Aires

Em poucas cidades do mundo a oferta artística é tão vasta e seu acesso é tão democrático quanto em Bueno Aires. Aqui, não é preciso ter grana nem ir muito longe para apreciar obras de arte valiosíssimas, entre murais, afrescos, telas e esculturas de importantes artistas — argentinos ou internacionais. Isso, é claro, sem contar a empolgante cena de Street Art — o maior grafitti do mundo fica no bairro portenho de Barracas.

Selecionamos a seguir algumas de nossas obras preferidas espalhadas por Buenos Aires. Todas gratuitas, mesmo as que se encontram em museus (e se o nosso famigerado Abaporu de Tarsila do Amaral ficou de fora, é só porque integra uma coleção privada, a do Malba). Traga a câmera fotográfica, o caderninho de anotações e bom passeio!

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(Foto: Divulgação)

1. Ejercicio plástico, de David Alfaro Siqueiros

Há alguns anos este mural gigantesco pertence ao acervo do Museo de la Casa Rosada (antigo Museo del Bicentenário), mas sua história é mais antiga e muito interessante. O mexicano David Alfaro Siqueiros estava em Buenos Aires no ano de 1933 quando o diretor do jornal Crítica, Natalio Botana, o contratou para fazer uma intervenção nas paredes do sótão de sua casa de verão, na província de Buenos Aires. Siqueiros, então, convoca um grupo de artistas argentinos (Antonio Berni, Lino Enea Spilimbergo e Juan Carlos Castagnino, além do cenógrafo uruguaio Enrique Lázaro), e criam, juntos, este que é considerado um dos mais importantes murais da América Latina. Nos anos 1990 a obra foi cuidadosamente extraída do sótão de Natalio Botana, mas acabou passando 16 anos dentro de contêineres até finalmente ser reinstalada no museu ao lado da Casa Rosada. Definida no manifesto assinado pelos artistas como uma “ginástica plástica”, a obra de 200 metros quadrados foi feita a partir de fotografias projetadas na parede, dando a sensação de se estar dentro de uma bolha e ser observado por mulheres. Não se acanhe e deite no chão para observá-la. É o melhor jeito de contemplar por inteiro esse trabalho tão ousado e original.

Museo de la Casa Rosada – Hipólito Yrigoyen, esquina com Paseo Colón. Abre de quarta a domingo das 10h às 18 (entrada somente até as 17h30).

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(Imagem: reprodução)

 2. Después de la batalla de Curupaytí, de Cándido López

A série que o argentino Cándido López pintou sobre a Guerra do Paraguai é um dos xodós do Museo Nacional de Bellas Artes, e está entre minhas preferidas. Reunidas no primeiro salão à direita de quem entra no museu (sala 23), estas nove telas pintadas entre 1893 e 1902, em formato “widescreen” (52x151cm), narram cenas deste que foi o episódio mais sangrento da América do Sul, em que López serviu como soldado. Quando não estava lutando, porém, desenhava cenas das batalhas em seu caderninho de anotações com a impressionante riqueza de detalhes que depois caracterizaria sua pintura analítico-descritiva. Em setembro de 1866 o Paraguai vence a batalha de Curupaytí, mas ganhar uma batalha não significava ganhar a guerra, e a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) acaba finalmente derrotando o Paraguai. Nessa batalha, porém, uma granada cai sobre o braço direito de Cándido López e sua mão (justo a que usava para desenhar) é amputada. Em 1887, sabendo da precária situação econômica do pintor, o então presidente argentino Bartolomé Mitre lhe encomenda uma série de quadros documentando a Guerra do Paraguai. E é então que, a partir dos esboços de seu velho caderninho, López pinta estas telas, agora com a mão esquerda. Esta, Después de la batalla de Curupaytí, é uma das mais emblemáticas.

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(Imagem: reprodução)

3. Sin pan y sin trabajo, de Ernesto de la Cárcova

Também em exibição no Museo Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires, esta tela de Ernesto de la Cárcova é considerada o primeiro quadro de temática operária e crítica social da história da arte argentina. Trata-se de um óleo pintado em 1894, ano que reflete a crise econômica que a Argentina enfrentou no final do século 19. Nela, um trabalhador dá um soco na mesa em que, ao invés de comida, vemos uma ferramenta abandonada, já que ele tampouco tem emprego. Da janela, vemos a polícia reprimindo uma manifestação de trabalhadores por melhores condições de trabalho. Ao lado dele, uma mulher, provavelmente sua esposa, amamenta um bebê apesar de sua evidente fraqueza por falta de comida. Uma cena de doer, retratada com maestria.

Museo Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires (MNBB) – Av. Del Libertador, 1473. Recoleta. Abre de terça a sexta das 11h às 20h e, nos finais de semana, das 10h às 20h.

4. Los primeros fríos, de Miguel Blay y Fábregas

Quem visita o Jardim Botânico de Buenos Aires não espera levar esse soco no estômago ao se deparar com uma obra de arte tão forte, tão potente quanto essa. Da primeira vez que a vi, fiquei meio desconcertada (estava com uma amiga e ficamos pelo menos uma hora admirando-a). Essa escultura em mármore, intitulada “Os primeiros frios”, foi produzida em 1892 e é de autoria de um artista catalão chamado Miguel Blay y Fábregas. A imagem é de um homem de idade junto de uma menininha muito jovem, ambos sofrendo os rigores dos primeiros dias de inverno. Ela, pedindo proteção e calor àquele homem (seu pai? Avô?); Ele, fechado como suas mãos entrelaçadas, parece tão frágil e desolado que é incapaz de lhe dar qualquer coisa. O frio, aqui, também pode ser metafórico (a morte? a velhice? a pobreza? a marginalização?). Difícil não se comover com a expressão de dor em seus rostos, o desenho dos músculos enrijecidos de frio. Não à toa o trabalho de Miguel Blay foi premiado na Exposición Nacional de Bellas Artes de Madri e no salão de artes de Barcelona em 1894, tendo influenciado toda uma geração de escultores catalães. Em Barcelona há uma versão em bronze dessa escultura. Esta, em Buenos Aires, foi adquirida em 1906 pelo fundador do Museo Nacional de Bellas Artes.

Jardín Botánico de Buenos Aires – Entradas pela Avenida Santa Fé, 3951, pela Santa Fé esquina Las Heras e pela República Árabe da Siria com Beruti. Palermo. Aberto de segunda a sexta das 8h às 18h, aos sábados e domingos das 9h às 18h e, aos feriados, das 11h às 18h. No verão: das 8h às 19h e das 9h30 às 19h (finais de semana e feriados).

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(Imagem: reprodução)

5. A pleno sol, de Benito Quinquela Martín

Quinquela Martín é o grande pintor de La Boca. Nascido em 1890 e criado no emblemático bairro do sul de Buenos Aires, aos nove anos foi trabalhar na carvoaria do pai e, aos 15, no porto de La Boca. Suas telas supercoloridas de estilo naturalista sempre giraram em torno desta temática: os barcos, o cotidiano dos estivadores, a atividade portuária e o Riachuelo, braço do Rio da Prata que banha o bairro. Entre suas obras mais conhecidas estão Tormenta en el Astillero (hoje, no Museu de Luxemburgo) e Puente de La Boca (em Londres, no Saint Jame’s Palace). Este óleo sobre tela, por sorte, pode ser visto em Buenos Aires no Museo de Bellas Artes de La Boca, também conhecido como Museo Quinquela Martín. Foi pintado em 1924 e ocupa uma parede inteira, com seus 250 x 200cm. Uma maravilha.

Museo Benito Quinquela Martín – Av. Pedro de Mendoza, 1843/35, La Boca. Abre de terça a sexta das 10h às 18h e nos finais de semana e feriado a partir das 11h15. A entrada ao museu é gratuita, mas recomenda-se uma contribuição de 40 pesos (não obrigatória).

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Detalhe do painel “La germinación”, de Antonio Berni. (Imagem: divulgação.)

6. Mural na cúpula das Galerías Pacífico, vários artistas

Inspirados e empolgados com a experiência do mural produzido em 1933 com o mexicano David Alfaro Siqueiros (já comentado ali em cima), um grupo de artistas argentinos fundou em 1944 o Taller de Arte Mural (TAM), com o objetivo de impulsionar um projeto muralista na Argentina. Porém, só puderam realizar um único trabalho, justamente este, em exposição permanente na cúpula das Galerías Pacífico (que na época ainda era a sede da empresa de trens Buenos Aires al Pacífico, daí o nome). Os argentinos Antonio Berni, Juan Carlos Castagnino, Lino Enea Spilimbergo e Demetrio Urruchúa, junto com o espanhol Manuel Colmeiro, são os responsáveis pelo trabalho coletivo, feito a 10 mãos, que se estende pelos 450 metros quadrados da cúpula da galeria. A ideia era representar iconográfica e alegoricamente o homem argentino, os ideais humanistas e a importância do trabalho como integração social, no contexto do pós-guerra (lembre-se que o ano é 1945). Também estão presentes temas como a família, a terra, o amor, a irmandade entre os povos e o domínio das forças da natureza. Um verdadeiro ícone do muralismo nacional.

Galerías Pacífico – Calle Florida, 753, esquina com Avenida Córdoba – Microcentro. Abre de segunda a sábado das 10h às 21h e aos domingos do meio-dia às 21h.

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(Imagem: divulgação)

7. A eterna primavera, de Rodin

Esta não é a única obra de Rodin em Buenos Aires. Um dos oito originais (o quinto) de O Pensador, talvez a escultura mais famosa do mundo, se encontra na praça em frente ao Congresso Argentino. O francês Auguste Rodin, que viveu na capital portenha durante dois anos no começo do século 20, apaixonou-se pela cidade e deixou aqui algumas de suas obras mais emblemáticas. Esta, A eterna primavera, mostra o beijo apaixonado de dois amantes com seus corpos entrelaçados, em um equilíbrio sublime. O original foi feito em bronze, em 1884, mas o artista esculpiu algumas versões em mármore, como esta, com 70cm de altura, 28 de largura e 37 de profundidade. A obra integra a coleção permanente do Museo Nacional de Arte Decorativo, antigo palácio da família Errázuriz-Alvear, que é, por si só, uma visita e tanto. Não longe dali, na esquina das avenidas Libertador e Samiento, pode ser vista outra escultura de Rodin, o Monumento a Sarmiento, único do continente feito pelo artista sob encomenda. E até 25 de fevereiro de 2018 o Museo de Bellas Artes (também ali perto) apresenta uma mostra em homenagem ao centenário do escultor francês. Imperdível!

Museo Nacional de Arte Decorativo – Avenida Del Libertador, 1902, Recoleta. Abre de terça a domingo apenas à tarde, das 14h às 19h. Entrada gratuita, contribuição de 25 pesos (não obrigatória).

E você, já teve a oportunidade de ver ao vivo alguma dessas obras? Descobriu outras? Conte pra gente o que achou!

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