Cortázar

Dois cafés para Cortázar (e um bônus)

O jornal La Nación anunciou há algumas semanas a abertura do primeiro bar em homenagem ao escritor argentino Julio Cortázar: erraram, não era o primeiro. Desde maio de 2015 existe o Rayuela Bar, que fica na esquina do imóvel onde o autor morou entre 1934 e 1951. Por que a confusão? Talvez porque o primeiro fique no distante e nada turístico bairro de Agronomia, enquanto o recém-inaugurado esteja na divisa entre Almagro e Palermo.

Mas isso pouco importa. O que vale é que, em Buenos Aires, os leitores e admiradores do “grande cronópio” sempre podem lembrá-lo (e lê-lo!) em cafés temáticos ou lugares que o próprio frequentava.

Dois cafés para Cortázar (e um bônus)

Cortázar

Foto: Damián Liviche

Café Cortázar

Aberto na segundo semana de dezembro, o Café Cortázar fica em Almagro (Cabrera, 3797, esquina com Medrano) e seu ambiente faz alusão a muitos elementos de sua vida e obra. Nas paredes, imagens de Paris e Buenos Aires, as cidades onde viveu e que aparecem em seus livros, além de frases escritas na técnica do fileteado portenho.

O som é sempre jazz, a música preferida de Julio. Há ainda murais de artistas plásticos e uma rayuela (jogo da amarelinha), que dá título a uma de suas obras mais conhecidas. No café – cuja logomarca foi criada na tipografia da mesma máquina de escrever Olivetti Lettera 22 usada por Julio – também é possível conferir uma exposição inédita do fotógrafo Bernardo Cornejo. “Siempre empezó a llover” traz imagens tirada do apartamento de Cortázar no pequenino bairro Rawson (em Agronomia), onde o escritor viveu na juventude e onde o fotógrafo também morou, por uma dessas enormes casualidades da vida.

Cortázar

Foto: Cecilia Angiocchi

Rayuela Bar

Se ainda vivesse no terceiro andar do número 3246 da calle Artigas, Julio Cortázar teria uma vista privilegiada deste café de esquina, onde o jazz rola suave ao fundo, a senha do wi-fi é sua data de nascimento e há sempre alguém tomando chá nas mesas sobre a calçada. No Rayuela Bar, quem quiser pode deixar um recado ou desenhar algo inspirado no quadro negro. É um café de bairro, charmoso e tranquilo, com flores naturais nos vasos e delicadeza em todos os detalhes. Está localizado na própria Artigas, 3199, e serve almoço, lanches rápidos e delícias doces. Funciona diariamente, exceto segunda-feira. Aproveite para caminhar por estas ruas arborizadas, sentar na praça em frente à casa de Julio e ler o conto Ônibus, do livro Bestiário, ambientado no bairro. (O ônibus em questão, aliás, é o 168, o que mais uso por aqui!)

Cortázar

Foto: Rosalie Smith

London City

O bar e confeitaria London City é famoso por ser o lugar onde o contista escreveu um dos seus poucos romances, Os prêmios. Quem senta numa de suas mesas é insistentemente observado por um retrato em preto e branco de Julio fumando um cigarro, captado pela fotógrafa Sara Facio. A história do lugar remonta a 1895, mas o imóvel na esquina da Avenida de Mayo com a Perú foi demolido, reconstruído e só abriu como London em 1954. No prólogo de Os Prêmios, Cortázar o descreve assim: “Não era fácil conversar àquela hora em que todo mundo estava com sede e entrava no London sacrificando o último sopro de oxigênio pela duvidosa compensação de um meio litro ou de um Indian Tonic. Já não havia muita diferença entre o bar e a rua; pela Avenida de Mayo subia e descia agora uma multidão com pacotes e jornais e maletas, sobretudo maletas de tantas cores e tamanhos”. Localizado estrategicamente na saída da estação Perú, da linha A do metrô, o London sempre foi um clássico do centro portenho e está na lista dos cafés notáveis da capital.

CortázarQuem foi Cortázar?

Julio Florencio Cortázar nasceu em Bruxelas por puro acaso e morreu em Paris aos 70 anos, em 1984. No meio tempo, viveu em Buenos Aires, onde produziu uma das obras mais importantes da língua espanhola. Entre seus livros mais conhecidos estão o romance O Jogo da Amarelinha e os volumes de contos As Armas Secretas, Octaedro, Todos os Fogos, o Fogo e Histórias de Cronópios e de Famas, uma extravagante coleção de contos poéticos e surrealistas. Ao lado de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, é tido como um dos mestres da literatura argentina de todos os tempos.

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