Fragmentos – Dica do leitor

Quem disse que só de relatos objetivos vive a Dica do leitor do blog Aires Buenos? Hoje, com muito prazer, trazemos “Fragmentos”, um relato poético de uma turista brasileira que registrou, com um olhar diferente do comum, o clima que cerca a cidade. Essa produção da Glaucia é linda demais e acompanha os destaques dessa breve passagem por uma cidade tão poética quanto esse texto!

Mas se o que você precisa para a sua viagem é de um roteiro quadradinho e no esquema, olhe nosso Guia Básico de Buenos Aires – O que fazer em 4 dias. Ou então, se você procura por pontos turísticos mais alternativos, veja o Guia Lado B dos pontos turísticos em Buenos Aires, que sai dos lugares tradicionais da cidade.

Fragmentos – Dica do leitor

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Fragmentos é uma antologia pessoal, uma série de fotografias acompanhada por relatos textuais muito subjetivos. Impressões captadas ao deslizar os olhos pela cidade de Buenos Aires, entre o ritmo de ir e vir dos passos, um pedacinho das coisas que vi e senti no período de tempo que lá vivi.

Uma tentativa de materializar lembranças e sensações em imagens e palavras, de forma despretensiosa, já que – é melhor deixar claro – não sou fotógrafa nem escritora. Essa compilação de imagens foi registrada com uma câmera fotográfica e um iPhone, valendo-me de pouca técnica e muita intuição.

Fragmentos também nasce de uma energia muito boa, das coisas que se faz porque se gosta, de uma energia interna que move a gente para o lugar incomum, para o além, para o desconhecido. Essa “gana” por absorver uma nova cidade, seu movimento, suas vozes, sua intensidade. E quanta intensidade encontrei em suas calles, Buenos Aires!

Dedicatória:

À vida, ao amor, às pessoas, ao movimento e às mudanças.

A tudo o que não é e à possibilidade de tudo o que pode vir a ser.

Ao prazer de ouvir e conectar histórias e pessoas.

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1- ARQUITETURA

A arquitetura de Buenos Aires é misteriosa como a própria cidade. Palacetes, casarões antigos, igrejas, edifícios governamentais, monumentos, praças sobrevivem majestosamente, por si mesmos recordações de um passado permanente. E não só sobrevivem, convivem de forma harmônica com estruturas atuais, num diálogo de elementos díspares que se toleram e, em muitos casos, se integram. Em uma esquina em frente ao Teatro Colón, por exemplo, há um edifício muito antigo, com abóbodas que lembram estruturas renascentistas e torres medievais, sua fachada agora mantém uma estrutura de vidro contemporâneo. Nas tantas vezes que por ali passei pensei na estrutura como uma metáfora, esse contraponto, essa mescla de diferentes formas, estilos e épocas como símbolo de adaptação – das coisas e das pessoas.

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2- IMPERMANÊNCIA

Aos fundos da Igreja San Ignacio, escondida entre o eco dos sinos paroquiais e os olhos menos atentos de quem passa pela calle Perú, uma recordação de que a beleza das coisas também está em sua impermanência. Há muitas desconstruções como essa em Buenos Aires, estruturas que se encontram em pleno processo de desgaste, expostas à ação do tempo, reinventam-se com o passar dos anos. Mudanças estéticas e de função agora acolhem outras formas de vida, jardins suspensos que teimam invadir portas e janelas que já não dão para lugar nenhum.

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3- ELA

A alguns metros, à esquerda – na calle Belgrano – segue a vida. Pessoas caminham a passo apurado, um amontoado de ônibus, buzinas, carros, táxis, vozes parecem encontrar ordem em meio à desordem. Mas, aqui, encostada em uma das paredes de San Telmo, um enigma. Envolta em solidão e abrigando-se nos próprios braços a mulher contempla com tranqüilidade o vazio. Perdeu tudo, sua casa, sua família, seus amigos, sua dignidade. Carrega consigo todos os pertences: três sacolas cheias de quinquilharias. Despida de regras e convenções sociais, representa o que há de mais instintivo no caráter humano: sobrevivência.

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4- ARQUITETURA II

Fazer o exercício de levantar a cabeça e apreciar as linhas verticais de Buenos Aires é um prazer tão intenso quanto caminhar por suas calles ouvindo tango. A cidade não para de se reinventar, está repleta de edifícios novos, altos e luminosos, cujas formas geométricas se movem e se sobrepõem como o movimento de uma dança. Vê a si mesma no reflexo de tantos vidros e espelhos, respira seu “bueno aire” através de muitos frisos e janelas. Essas construções preservam em seus poros o espírito portenho e se autoconstrói através de múltiplas camadas de memória coletiva.

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5- DEFENSA

Os portenhos têm uma relação bastante íntima com seu passado. Múltiplas camadas de tempo coexistem em suas ruas, mas são os ladrilhos da Calle Defensa que guardam a energia mais intensa desse acúmulo de histórias. Suas vitrines cheias de cristais e objetos antigos despertam imaginação e também desejo. Adentrar por uma destas portas é como transcender o espaço-tempo e despertar em outra realidade. Cada antiguidade é um potencial segredo, um mistério a ser desvendado, um ponto, uma vírgula, uma entrelinha que ajudou a contar – um dia – a história de alguém.

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6- COLÓN

Passos apressados cruzam a 9 de Julho, não sabem para onde ir, procuram o desconhecido, gostam de movimento. A principal artéria de Buenos Aires está abarrotada de carros, de gente, de vida. Ali, mais à frente, virando à esquerda na Calle Viamonte, uma saborosa surpresa. O som desbotado de um piano flui delicadamente entre um amontoado de personagens, acompanhado por flautas e violinos. Espera. Os passos cansados sossegam e encontram equilíbrio numa pequena placa de vidro. Abaixo – a poucos metros – as galerias subterrâneas do suntuoso Teatro Colón. Um rapaz passa carregando duas sacolas de frutas. Ao lado, algumas senhoras tagarelam baixinho, fazendo esforço para não destoar da sintonia. Casais se beijam e abraçam. Há uma energia fresca e distinta envolvendo a Plaza Vaticano, é quase possível tocar. Abandonado pelo último som das teclas do piano, os passos – agora menos afoitos – continuam sua excursão, pisando macio, mais soltos e mais leves.

Concerto para piano ao ar livre. Plaza Vaticano. Teatro Colón.

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7- LIVRARIAS

Tesouro dos portenhos, as livrarias abarrotadas de livros antigos são um deleite para a gente que gosta de alimentar-se também com palavras. Amontoados de títulos e edições dividem espaço com cheiro de papel velho, texturas e padrões de cores parecem nascer de forma orgânica entre prateleiras sem fim. E se não houver mais espaço nas paredes, espalham-se no chão, sobre tapetes de veludo e tacos de madeira empoeirados. Alguns chamam a atenção logo de cara, aguçam os olhos por sua vestimenta atraente. Mas, assim como na vida, bons livros nem sempre são tão aparentes. Feliz daquele que consegue despir o olhar para enxergar suas entrelinhas.

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Muito obrigado pelas lindas palavras, Glaucia. A cidade e o blog agradecem essa homenagem feita com tanto carinho. Com certeza os leitores vão se sentir ainda mais inspirados a visitar a capital portenha. São desses olhares que a cidade é feita, muitas vezes olhares apressados ou desconcentrados, mas quando paramos para reparar, conseguimos ver toda essa poesia que Buenos Aires nos apresenta.

Se você, querido leitor, gostou desse relato, mas procura por mais experiências, visite a categoria DICA DO LEITOR.

E caso você já tenha vindo para cá, mande um e- mail para airesbuenosblog@gmail.com com algumas fotos e contando como foi sua experiência de viagem. Em breve sua história vai aparecer aqui! 

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1 comentário

  1. Edinalva Magalhaes

    Adorei Gláucia! Vc pode não ser fotógrafa e nem escritora, mas mandou muito bem,as fotos ficaram lindas e o texto, show! E Buenos Aires é um prato cheio de inspirações … e das melhores!! Saludos!

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