La Flor de Barracas

La Flor de Barracas, o mais notável dos cafés portenhos

Quem já fez o Tour Lado B com o Aires Buenos deve lembrar de ter visitado uma das ruas menos pop e mais lindas da capital portenha, a Pasaje Lanín, onde fica o ateliê do muralista Marino Santa María.

O que poucos sabem é que o Marino, assim como a maioria dos moradores deste bairro, é fiel frequentador da Flor de Barracas, o mais notável dos cafés portenhos.

Embora muito antigo, o lugar mudou de dono e reabriu recentemente com uma proposta louvável: lançar luz sobre a memória deste bairro da zona sul portenha e sobre sua própria história. Essa semana fomos lá para conhecê-la de perto.

La Flor de Barracas, o mais notável dos cafés portenhos

La Flor de Barracas

(Foto: Ana Luz Sanz)

Barracas não é um bairro turístico. Pelo contrário. Vizinho de San Telmo e La Boca, abrigou no passado as principais indústrias do país (automotiva, têxtil, gráfica, ferroviária), instaladas aqui pela proximidade do antigo porto. Trata-se, portanto, de uma região com forte tradição operária. E esses operários, naturalmente, precisavam comer. Foi para atendê-los que nasceu, na virada do século 19 para o 20, La Flor de Barracas.

La Flor de Barracas

(Foto: Elisandro Dalcin)

Dizem que o imóvel é de 1897, mas não há documentos que o comprovem. O registro mais antigo garante que La Flor está de pé pelo menos desde 1906, e que sempre esteve no ramo da comida: como restaurante, bar, café, confeitaria, boteco ou salão de bilhar (alguns tacos ainda estão guardados no porão, imagine!).

La flor de barracas

(Foto: Elisandro Dalcin)

La Puñalada, Tarzán e Luna Park foram alguns dos nomes que já teve essa esquina da avenida Suárez com a calle Arcamendia. Desde 1965 se chama La Flor de Barracas. E desde 2011 integra a concorrida lista de Cafés e Bares Notáveis de Buenos Aires.

Por 60 anos, pertenceu a três espanhóis, mas quando faleceram foi decaindo nas mãos da última viúva e em 2009 um cartaz o anunciava à venda por 300 mil dólares. Por sorte a nova proprietária, ao invés de construir ali um hotel ou mesmo botá-lo abaixo, decidiu recuperar o espírito daquele local. E fez muito bem.

Em janeiro de 2015, a casa passou a ser administrada pelo gestor cultural e escritor Carlos Cantini, uma figura incrível que vem escrevendo a história dos cafés de Buenos Aires no blog Café Contado (uma brincadeira com o termo café cortado, o “pingado” local).

La flor de barracas

Carlos Cantini, o dono da Flor. (Foto: Elisandro Dalcin)

Carlos tem feito um trabalho lindo de recuperação da memória daquela esquina. Desde que assumiu, alterou minimamente o espaço e vem conquistando clientes novos enquanto mantém os antigos. A casa conserva seu piso, balcão, mesa e cadeiras originais, além de uma geladeira de madeira velhíssima ainda funcionando (que aparece na foto aí de baixo). La Flor também conta com dois espaços anexos ao principal, o pátio Arolas (em homenagem ao bandoneonista Eduardo Arolas, que morou a uma quadra e compôs 100 tangos antes de morrer em Paris) e o salão Ángel Villoldo (outro barraquense, cuja composição El Choclo disputa com La Cumparsita o posto de hino tangueiro). Ali, acontecem eventos culturais que vão de espetáculos musicais a lançamentos de livros e projeção de filmes.

La Flor de Barracas

(Foto: Elisandro Dalcin)

Tem mais: na sala dos fundos há uma pequena peluquería, onde uma sueca radicada na Argentina faz cortes de cabelo unissex enquanto conversa num espanhol perfeito. Linda Leonard mora a uma quadra, no charmoso edifício Barracas Central, e só atende com horário marcado (pelo Facebook ou no fone 11 54652888).

La flor de barracas

A peluquería de Linda. Foto: divulgação

Fomos visitar La Flor numa quarta-feira depois do almoço e aproveitamos o horário de menor movimento para bater papo com o Carlos Cantini, que nos recebeu com uma porçãozinha de amendoins e cerveja gelada. Já tínhamos almoçado, mas soube que La Flor é famosa por servir pratos clássicos e abundantes (bem ao gosto dos operários que a frequentam há mais de 100 anos). No almoço, o menu com prato principal, bebida e café ou sobremesa sai por apenas $98 pesos (preços de novembro de 2015). Como digestivo, vá de café cortado ou, para variar, peça uma dose do emblemático licor de laranja Hesperidina.

La Flor de Barracas

Uma pequena amostra do que é o almoço no La Flor (Foto: divulgação)

As mesas costumam estar ocupadas por trabalhadores do bairro, vizinhos, professores, pais e alunos da Escuela Normal 5 (declarada Patrimônio Histórico Nacional). Ou por Marino Santa María, que às vezes passa pra tomar um café. Não é raro ver também equipes de cinema gravando filmes ou comerciais – um dos episódios da série El Clan, da Telefe, foi ambientada ali.

La Flor de Barracas é a desculpa que todos precisávamos para explorar um dos bairros menos conhecidos pelos turistas em Buenos Aires. Mesmo que fique um pouco fora do circuito padrão, vale muito a visita.

La Flor de Barracas

O humor espirituoso da casa. (Foto: divulgação)

La Flor de Barracas
Avenida Suárez, 2095 – Barracas
Diariamente: seg a qui das 7h às 19h; sextas e sábados até meia-noite; domingo apenas para almoço.

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