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Los Laureles: Tango de verdade em Barracas

Se você chegou até aqui buscando um daqueles shows de tango portenho com bailarinos profissionais, orquestra típica, muito glamour e jantar incluído: lo siento. Há muitas opções assim em Buenos Aires (Veja nosso post sobre shows de tango em Buenos Aires), mas este texto é sobre outra coisa.

Talvez você já conheça alguma milonga, os famosos salões de baile onde os tangueiros se reúnem para ouvir e dançar o dois-por-quatro. Há mais de uma centena por semana só em Buenos Aires, algumas oferecendo aula para iniciantes, outras com músicos ao vivo. Para descobrir qual é “a boa” da noite, uma dica é usar o buscador Hoy Milonga.

Entre elas, estão as tradicionalíssimas milongas de Los Laureles.

Eu já tinha ouvido falar neste bar histórico, mas foi preciso a visita de uma amiga de Curitiba para me animar a cruzar a cidade até Barracas, um dos bairros do sul, onde a cena tangueira é mais viva e pulsante.

Los Laureles: Tango de verdade em Barracas

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Fotos: Divulgação Los Laureles

O bairro de Barracas nunca esteve realmente no circuito turístico, mas aos poucos começa a despertar interesse, seja pela hermosa calle Lanín (que visitamos em nosso Tour Lado B), seja por lugares que parecem estacionados no tempo, como La Flor de Barracas. Pois a poucas quadras dali, na esquina da avenida Iriarte com a calle Gonçalves Dias, está este bar fundado em um casarão de 1893, quando Gardel ainda era un pibe de calça curta.

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Foto: Mariana Sanchez

Los Laureles é um bar-restaurante que se define como um “bodegón milonguero”, com decoração pitoresca, piso quadriculado, comida simples e abundante, preços honestos e uma autêntica atmosfera de bairro. No passado, foi pulpería, armazém de ramos gerais, distribuidora de bebidas e salão de bilhar. De seus janelões, esticando um pouco a cabeça, dá ver o trem Roca passando veloz sobre o pontilhão.

Los Laureles

Às quintas-feiras a casa sedia a milonga Rumbo al Sur, e, aos sábados, a chamada Milonguita empastada, que leva este nome por tocar apenas discos “de pasta”, nossas antigas bolachas de 78 rotações. Nada como ouvir o bandoneón de Aníbal Troilo e a voz de Gardel com aquele indefectível chiado de fundo.

No site e fanpage da casa você pode conferir a agenda atualizada, mas algo comum na programação são as aulas de tango a la gorra, ou seja, “passando o chapéu”.

Fomos numa sexta-feira, na tradicional Peña de Tango de Arrabal. Para garantir, fizemos reserva, pois o lugar é pequeno e costuma lotar, mas eles só seguram mesa até as 21h30. O erro foi pegar um Uber ao invés de um táxi, porque em geral só quem é da região sabe circular bem pelas ruas labirínticas de Barracas. Resultado: atrasamos uns 40 minutos e já estávamos ficando desesperadas, com o motorista mais perdido que nós (parêntese: o cara morou anos em Curitiba e contou que foi um dos fundadores da Apolar Imóveis!). Demos sorte e conseguimos mesa, mas a aula de tango já tinha terminado. A sensação era de que todos nos olhavam, porque o lugar parecia um grande clube de bairro, com tangueiros da velha guarda e absolutamente nenhum turista à vista.

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Passamos a noite bebericando vinho Malbec e ouvindo uma sequência de excelentes músicos revezando-se no microfone aberto, enquanto os casais mais experientes – nenhum com menos de 50 anos – davam seus passinhos na pista. De repente, uma senhorinha encurvada é convocada a cantar e todos fazem silêncio. Nem os garçons se movem. Tudo fica em suspenso.  A viejita agarra o microfone e solta o gogó, deixando os comensais estupefatos:

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Inés Arce é uma das intérpretes mais amadas por ali. Conhecida como La Caladria, nasceu em 1927 e está completando noventa anos! Ouvi-la me fez lembrar dos discos de Libertad Lamarque que meu avô escutava, com sua voz aguda e fina, porém firme e poderosa. No intervalo dos shows, quando os bolachões voltam a soar, fizemos questão de comprar um disco de Inés e também de deixar uns pesos no chapéu dos músicos. Muitos dos que tocam ali fizeram fama no extinto bar El Chino, no bairro de Pompeya, a oeste de Barracas – a história foi contada no filme El último aplauso, de Germán Kral, em que participa Inés.

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Los Laureles pode até ser meio fora de mão para quem fica em Palermo ou Recoleta, mas se você quiser viver uma autêntica experiência tangueira e guardar boas fotos e recordações, não deixe de visitá-lo.

Los Laureles
Av Gral. Iriarte 2300, Barracas
Ônibus 10, 12, 20, 24, 33, 45, 51, 70, 74, 79, 93, 95, 100, 129, 133, 134, 148, 195
Trem: Estação Yrigoyen, linha Roca
(Mas o ideal é mesmo pegar um táxi!)

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3 comentários

  1. Geovanne

    Excelente dica! Vou visitar Buenos Aires novamente em setembro e já quero ir neste local.

    Mariana, te faço uma pergunta meio boba: eu não danço de jeito nenhum, sou um verdadeiro cabo de vassoura rsrs. Eu posso visitar qualquer milonga apenas pr contemplar a dança, o ambiente e os artistas, ou dependendo do lugar eu teria que obrigatoriamente dançar pr ñ ficar sem graça?

    • Mariana Sanchez
      Author

      Hola, Geovanne! Ninguém é obrigado a dançar, não. Eu mesma, quando vou, fico só bebericando um vinho e assistindo o povo dançar, hehe. Abrazos!

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