Palácio de Águas Correntes

O exuberante Palacio de las Aguas Corrientes de Buenos Aires

Seu queixo já caiu ao passar pela avenida Córdoba na altura da calle Riobamba? Você não está sozinho: muitos moradores e visitantes de Buenos Aires consideram este edifício uma das mais belas e valiosas joias arquitetônicas da capital. No nosso tour Lado B de Buenos Aires passamos por lá e a galera ama.

O Aires Buenos percorreu sua visita guiada com um dos principais especialistas em Patrimônio Argentino e conta tudo o que você deve saber sobre este palácio, como ele foi construído e por quê.

O exuberante Palacio de las Aguas Corrientes de Buenos Aires

Palácio de Águas Correntes

Fotos: Elisandro Dalcin

Há quem pense que este edifício de pomposa fachada seja a sede de uma antiga estação, um museu histórico ou mesmo a residência de um figurão do passado. Mas o título deste post já revela de que se trata. O Palacio de las Aguas Corrientes foi criado para isso mesmo: para o armazenamento e distribuição de água potável na cidade de Buenos Aires – o tratamento era feito no edifício onde hoje está o Museu de Bellas Artes, num terreno mais baixo e mais perto do rio.

A pergunta é: por que criar um tanque d’água em forma de palácio? Bem, porque estamos em Buenos Aires, baby, cidade que em sua era de ouro foi uma das mais ricas e importantes do ocidente, quando dava de comer (carne) e beber (leite) para europeus e norte-americanos famintos na virada do século 19/20.

Mas não só por isso.

Em 1871, como já contamos aqui outras vezes, a cidade foi vítima de uma epidemia brutal de febre amarela que dizimou quase 10% de toda sua população, incluindo o vice-presidente. Chegou-se a contabilizar mais de 500 mortos em um só dia – daí, aliás, a necessidade de se construir o Cemitério da Chacarita, o maior da América Latina.

Febre amarela

Epidemia de febre amarela retratada em tela de Juan Manuel Blanes. A cena teria ocorrido num cortiço da rua Balcarce, em San Telmo, em março de 1871.

Os médicos da época não se cansavam de avisar os governantes que de nada adiantava construir hospitais ou, muito menos, cemitérios: era preciso atacar a origem do problema, e o problema não estava no ar (os aires já eram buenos!), mas sim na falta de saneamento. Construir um sistema adequado de armazenamento e distribuição de água que desse conta de uma cidade com 230 mil habitantes era mais do que urgente. E fazê-lo em forma de monumento só mostra a importância que a higiene e a água pura tinham para a época.

Palácio de Águas Correntes

O prédio visto da esquina da Riobamba e Córdoba.

Buenos Aires foi a primeira cidade das Américas a ter um sistema de água filtrada, inaugurado em 1869, mas insuficiente para atender uma cidade em pleno crescimento. Até 1877, o único depósito era um tanque de 2.700 metros cúbicos. Fora ele havia ainda os poços artesanais para coleta de água das chuvas. Quem não tinha um em casa, no entanto, precisava recorrer ao serviço dos “aguateros“, que tiravam água do Rio da Prata para vendê-la de porta em porta em grandes tonéis, mas a água não era exatamente própria para beber.

Por tudo isso, a construção do Palacio de Aguas Corrientes foi um grande marco para a capital portenha. Prova disso é que apenas um ano após inaugurada, a taxa de mortalidade de Buenos Aires caiu em 90%.

Palácio de Águas Correntes

O projeto: à frente do seu tempo.

A obra, idealizada pelo engenheiro inglês John Bateman, começou a ser construída em 1887 e só ficou pronta em 1894, mesmo ano em que nascia em Buenos Aires outro símbolo da modernidade portenha, a Avenida de Mayo. Quatrocentos homens trabalharam nesta que é uma das obras de engenharia mais ambiciosas de seu tempo. São 12 tanques divididos em três andares, sustentados por uma estrutura de 16 toneladas de ferro fundido, com capacidade para armazenar 72 milhões de litros. O controle do nível de água era feito manualmente, de hora em hora, e este registro está guardado em livros dentro dos próprios tanques, que desde o final dos anos 1970 são usados somente como arquivo.

Palácio de Águas Correntes

Palácio de Águas Correntes

O guia mostra o controle manual do nível de água nos livros da biblioteca.

Tão impressionante quanto sua estrutura interna é o prédio em si, ocupando uma quadra inteira entre as ruas Riobamba, Viamonte, Ayacucho e a avenida Córdoba. Metade do valor de toda a obra foi para sua fachada, adornada com 300 mil peças de terracota trazidas de barco da Inglaterra e montadas aqui, num quebra-cabeças sem precedentes. Além de simbolizar o poder econômico industrial da Argentina no século 19, a ideia também era deixar evidente o investimento do governo em obras sanitárias, que costumam ser subterrâneas e pouco visíveis pelo povo. Muito espertos, não?

Palácio de Águas Correntes

Uma das partes do quebra-cabeça que compõe a fachada.

Naquela época, havia mais italianos e espanhóis vivendo em Buenos Aires do que argentinos. Muitos outros europeus também estavam instalados aqui, e esse caldeirão cultural – cujas influências são sentidas até hoje – deixou marcas na construção do Palácio das Águas Correntes: o projeto é de um inglês, o desenho é de um norueguês, o diretor da obra era sueco, a estrutura de ferro foi trazida da Bélgica e a construção propriamente dita ficou a cargo de um italiano. Ou seja: nada mais portenho.

Palácio de Águas Correntes

Jorge Tartarini revela os segredos do interior do edifício.

A visita ao Palácio é muito esclarecedora, principalmente porque seu guia é o arquiteto Jorge Tartarini, diretor do Museu da Água e da História Sanitária, autor de vários livros e grande estudioso do patrimônio argentino. A visita dura cerca de 40 minutos e todas as plaquinhas informativas têm tradução ao português. Além de ficar por dentro do contexto histórico da construção do Palácio, um dos pontos altos da visita é a insólita coleção de vasos sanitários, bidês e outros artefatos sanitários. As peças passavam por testes até serem aprovadas para uso, e algumas delas estão em exibição neste que deve ser o maior (talvez o único!) museu de privadas do mundo. Jorge, o guia, costuma comentar a fixação dos argentinos pelo bidê, descoberto em viagens à França e rapidamente incorporado à vida portenha. Tanto, que continua em uso até hoje, enquanto se tornou objeto obsoleto nos banheiros franceses.

Palácio de Águas Correntes

Isso mesmo, um museu de privadas.

Palácio de Águas CorrentesEm 1987 o Palacio de las Aguas Corrientes foi declarado Monumento Histórico Nacional e, em 2014, a empresa estatal de Água e Saneamento Argentino (AySa) deu início a um ambicioso plano de recuperação do palácio, que está praticamente concluído. Se quiser conferir essa maravilha de pertinho, anote na agenda: as visitas guiadas acontecem três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas-feiras, pontualmente às 11h, no primeiro andar do prédio, e são gratuitas.

Palacio de las Aguas Corrientes
Riobamba, 750 (a uma quadra da estação de metrô Callao da linha D)
Visitas guiadas gratuitas às segundas, quartas e sextas-feiras às 11h.

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guiaoquefazerembuenosaires

2 comentários

  1. Ângelo Medeiros

    Muito legal ! E tem também uma história, contada em um livro que trata de casos fantasmagóricos de Buenos Aires, que fala sobre a misteriosa morte de uma jovem portenha, nunca totalmente esclarecida, cujos despojos teriam sido encontrados posteriormente neste palácio – não sei se necessariamente em um dos tanques…

  2. Pingback: Palacio de Aguas Corrientes na Avenida Córdoba | Aires Buenos | Simplesmente tudo sobre Buenos Aires

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