Parque Lezama e Museu Histórico Nacional

Parque Lezama e um papo com San Martín

Admito: a referência “a uma quadra do Parque Lezama” foi o que me convenceu a escolher, dentre tantos apartamentos que vimos, este que alugamos em San Telmo. Cenário de um dos principais romances de Ernesto Sábato, Sobre heróis e tumbas, este é o mais antigo e um dos maiores parques de Buenos Aires. Um lugar que eu ainda não conhecia, mesmo tendo visitado a cidade muitas vezes.

Seu nome vem do antigo proprietário, José Gregorio de Lezama, um aficionado por botânica que encheu o terreno de tipuanas, acácias, olmos e magnólias que hoje impressionam por suas raízes descomunais. Em 1889, quando Don Lezama morreu, sua viúva vendeu o terreno para a prefeitura de Buenos Aires a preço de banana, com a condição de que fosse criado ali um parque público com o nome do marido. Em 1894 a promessa foi cumprida.

Parque Lezama e um papo com San Martín

Parque Lezama e Museu Histórico Nacional

Guri “armado” com seu presente de dia das crianças.

Visitei o parque duas vezes até agora: a primeira num sábado chuvoso, quando tudo era silêncio e velhinhos jogando xadrez nas mesas que circundam o anfiteatro; a segunda num domingo de sol, famílias, música ao vivo e aquele auê. Nas duas, me chamou atenção a diversidade do seu conjunto de esculturas, que inclui desde o fundador de Buenos Aires Pedro de Mendoza – diz-se, aliás, que a fundação em 1536 se deu ali pertinho – até a Loba Capitolina, passando por Netuno, Palas Atena, Ceres e uma Madre Tereza de Calcutá um tanto deslocada no meio de tanto mármore e bronze greco-romano.

Por estar situado num ponto alto da zona sul de Buenos Aires, numa barranca que marca a antiga margem do Rio da Prata, o Parque Lezama tem mirantes que no passado davam para o rio, mas hoje só dão para as barraquinhas da feira de roupas usadas que pululam aos domingos na Avenida Martín García.

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No banco perto da estátua de Ceres, vi um ou outro rapaz alto e encurvado, abandonado em seus pensamentos, como o Martín de Sobre heróis e tumbas. Vi também muitos pibes brincando com seus presentes de dia das crianças (festejado no último domingo), e grupos enormes entrando na antiga mansão da família Lezama, onde desde 1897 fica o Museo Histórico Nacional, outro atrativo do parque.

Parque Lezama e Museo Histórico Nacional

Crédito: Luiz Apolonio

Paguei 20 pesos e entrei para conferir. O acervo, com mais de 50 mil peças relacionadas à história do país até a metade do século 20, foi organizado com o objetivo de difundir a ideia de “nação argentina” iniciada com a Revolução de Maio e a Guerra da Independência – e que, inicialmente, excluía seus povos originários, mas que hoje já conta com uma rica coleção do período pré-colonial. Basicamente, a visita é interessante para quem deseja saber quem foram, afinal, os próceres que dão nome às principais avenidas, praças e parques portenhos. A começar pelo San Martín que, não, não está sobrando no título deste post.

Parque Lezama e Museu Histórico Nacional

Minhas alpargatas e o piso hermoso do museu.

Como ontem foi feriado nacional em memória à morte (quer dizer, à “imortalidade”) de San Martín, sua figura foi um dos destaques da visita guiada que assisti no museu. Lá, estão objetos pessoais do general, como o catre que usou na campanha libertadora, o poncho presenteado pelos índios Mapuche, os móveis de seu quarto em Bologne-sur-Mer e até a cama “onde passou os últimos segundos da sua vida”, dramatizou a guia.

Uma das peças mais curiosas de todo o museu também se refere ao “pai da pátria”, e está em exibição desde o ano passado. Intitulada “Charla con el General San Martín, a obra interativa propõe justamente uma conversa próxima e informal entre ele e o público. É como se estivéssemos todos em 1848, enquanto o libertador se ajeita em frente ao daguerreótipo de Robert Bingham para seu único registro fotográfico. “Qual era a cor do seu cavalo?”, “O que você achava do Rivadavia?”, “Quantos irmãos você teve?”. As crianças estavam doidas para papear com o grande mito da história nacional. Eu, na verdade, estava doida para saber como aquilo funcionava.

Parque Lezama e Museu Histórico Nacional

A obra interativa “Charla con el general San Martín”.

Descobri que a obra, criada pelo realizador Roberto de Biase, não lança mão de um imenso banco de dados acionado conforme as perguntas do público, como eu pensava, mas do trabalho em dupla de um animador e um ator, que criam o texto, a voz e os gestos de San Martín. Ou seja: é tudo no improviso, o que torna a obra ainda mais genial.

Conversei com a dupla – que preferiu não se identificar para não tirar o mistério do jogo – e soube que eles já tiveram de encarar cerca de uma hora de interrogatório sem pausa. “Todas as respostas são baseadas em cartas, documentos e evidências históricas, mas para respondê-las levamos em conta quem pergunta, se é uma criança ou um adulto, um homem ou uma mulher, e esses detalhes vão dando cor ao texto”, me contou o ator, de 63 anos, que também é advogado, docente e desde criança se interessa pela vida de San Martín.

Parque Lezama e Museu Histórico Nacional

A esquina do Británico e Hipopotamo: dois clássicos em frente ao Parque Lezama.

Saí do Museo Histórico Nacional impressionadíssima, e também faminta. Por sorte, na esquina da calle Defensa com a avenida Brasil estão dois bares notables geniais, o Hipopotamo e o Bar Británico, que, juntos, somam quase 200 anos de história. San Telmo é mesmo um passeio no tempo.

E você, já deu uma volta por estas bandas? Conte para nós como foi sua experiência.

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9 comentários

  1. Sérgio Karam

    Muito legal o texto, Mariana. Já tô esperando um post sobre as maravilhosas livrarias da cidade: Eterna Cadencia, Libros del Pasaje, El Ateneo e um longo etc. Abrazos!

  2. Mariana, que delícia de texto! Estava procurando um post sobre o Parque Lezama e me encantei com o seu. Gostei tanto que linkei seu post no que acabei de publicar sobre San Telmo lá no Nativos do Mundo!
    (não conhecia seu blog, apesar de também ser da RBBV e já digo que você ganhou mais uma leitora! Adorei seu blog! Parabéns)

    Boas festas!
    Abraços,
    Ana

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