Villa Ocampo

Pegue um trem até Villa Ocampo

Às vezes é bom dar um tempo do fuzuê da Buenos Aires urbana e respirar outros “aires”. Um passeio ao Tigre pode ser uma boa, mas se além de ter contato com a natureza a ideia também é se aprofundar na história e na cultura argentina, eis o destino ideal: Villa Ocampo.

Ao invés de seguir até a estação rodoviária de Tigre, desça antes, em Béccar. Aí, é só caminhar algumas quadras em direção ao Rio da Prata e pronto, os portões da aristocracia argentina se abrirão para você.

Pegue um trem até Villa Ocampo

Villa Ocampo

A partir do século 19 os terrenos à margem norte do Rio da Prata passaram às famílias aristocráticas portenhas, que os usavam como quintas de veraneio. Os Ocampo estavam entre os mais nobres e importantes da época (tendo inclusive apoiado financeiramente a Revolução de Maio), mas foi durante o século 20 que se estabeleceram como pilares da cultura argentina, graças às irmãs Silvina e Victoria. Enquanto a primeira, caçula, é considerada até hoje a principal escritora do país, Victoria, a mais velha (1890-1979), foi a grande mecenas das artes nacionais. Fundou a revista e editora Sur, que editaria Jorge Luis Borges (até então um desconhecido), Bioy Casares (quem depois se casaria com Silvina) e as melhores penas do século 20, foi diretora do Teatro Colón, publicou diversos ensaios e livros, participou de inúmeros movimentos intelectuais e sempre esteve envolvida com as vanguardas artísticas de seu tempo – da Argentina e da Europa.

Villa Ocampo

A própria, no quintal da residência.

Villa Ocampo

Vista dos fundos da propriedade.

No ano em que nasceu, sua família começou a construção da Villa Ocampo, onde passariam os meses calorosos de novembro a março. A residência, projetada pelo pai de Victoria em estilo italiano, contava com dez hectares e chegava até a barranca de San Isidro, desembocando no rio – hoje, o terreno tem apenas um hectare. Sua proprietária era Francisca, tia de Victoria, quem deixou a casa para a sobrinha em testamento. Em 1941, Victoria se instalaria ali definitivamente, dando um toque moderno ao suntuoso casarão e transformando-o em parada obrigatória da intelectualidade mundial, do poeta indiano Tagore, ao francês Exupéry (autor de O Pequeno Príncipe), incluindo o pianista Igor Stravinsky, o arquiteto e urbanista Le Corbusier, o poeta Pablo Neruda, o escritor Albert Camus, o autor de Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley, entre muitíssimos outros.

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Com seus indefectíveis óculos de gatinho, ao lado da primeira-ministra da Índia Indira Gandhi.

O filósofo espanhol José Ortega y Gasset a chamava de “La Gioconda de los Pampas”, a grande escritora Virgia Woolf a descrevia como “la opulenta belleza de la millionaria de Buenos Aires”, mas a própria Victoria gostava de dizer que “as pessoas não são ricas pelo que têm, mas pelo que têm para dar”. Victoria foi uma militante da literatura e das artes em geral, e também uma das primeiras feministas do país, tendo fundado a Unión Mujeres Argentinas e lutado pelo voto feminino e em defesa dos mesmos direitos civis e políticos para homens e mulheres.

Victoria doou em vida a Villa Ocampo para a Unesco, que a mantém como um “observatório” para a pesquisa e a reflexão sobre as artes e os grandes temas da humanidade.

Villa Ocampo

O início do tour, na escadaria em frente a um tapete de Picasso.

Villa Ocampo

O escritório e parte da biblioteca de Victoria…

Villa Ocampo

… onde encontrei essa antologia de contos brasileiros!

O passeio até lá inclui visita guiada em espanhol (a partir das 14h) e acesso a todos os ambientes da casa – incluindo sua invejável biblioteca. Há ainda um excelente restaurante e casa de chá com vista para os jardins, onde gansos caminham em fila pedindo para serem fotografados. Almocei duas vezes lá e achei tudo excelente, a um preço bem honesto (cerca de 200 pesos com bebida, sobremesa e café). Dizem (mas ainda não provei) que a cafeteria e os chás da casa também são sensacionais.

Villa Ocampo

O restaurante com vista para os jardins.

Villa Ocampo

Um spaghetti simples e delicioso…

 

Villa Ocampo

…e uma sobremesa para finalizar.

Villa Ocampo

(sacá só o crème brûlée!)

A Villa Ocampo abre de quarta a domingo das 12h30 às 19h. O ideal é ir para o almoço, e a melhor maneira de chegar lá é tomando o trem linha Mitre sentido Tigre na estação de Retiro (ou, se estiver em Palermo, na Lisandro de la Torre) e descer na estação Beccar, a apenas sete quadras da casa.

Villa Ocampo

Villa Ocampo

Os novos trens: rápidos, superconfortáveis e baratinhos.

A entrada custa $50 pesos (preço de setembro 2016). Às vezes também acontecem concertos, exposições e outras atividades culturais na casa, então vale conferir sua fanpage.

Villa Ocampo
Elortondo 1837, Beccar
Tel (54-11) 4732-4988
De quarta a domingo das 12h30 às 19h

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2 comentários

  1. Patricia

    Poxa… estará fechado de 10 de outubro até 10 de novembro. Pena, pois estarei em Baires semana que vem

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