Sobre dois andares em movimento – Jornalismo de Viagem na Prática

Desde a semana passada o Aires Buenos Blog está publicando uma série de reportagens dos alunos do Curso Na Estrada – Jornalismo de Viagem na Prática. Hoje o post vai ser sobre os famosos e muito procurados ônibus de turismo. O Daniel Benites encarou um teste das três linhas do ônibus turístico, acredita? E vai nos contar um pouco sobre cada uma delas.

O post anterior foi sobre Pub Crawl em Buenos Aires. Se você quiser como funciona é só clicar em De bar em bar. Acho que você vai querer participar de um também.

Sobre dois andares em movimento – Jornalismo de Viagem na Prática

Sentindo uma brisa suave naquele início cinzento de tarde, foi com grande expectativa que embarquei naquele ônibus amarelo. Não era um coletivo comum. O Buenos Aires Bus tem dois andares, dos quais o superior haveria de me transmitir uma experiência no mínimo mais arejada – o que de fato aconteceu logo que me ajeitei vendo Buenos Aires do alto, de camarote. O receio de outra tempestade como a da manhã, entretanto, gerou alguma apreensão. Por sorte, a chuva dera uma trégua.

Eu já vira aqueles circulares turísticos antes, em minha cidade natal, São Paulo. Ônibus de dois andares, coloridos, que buscavam entreter tanto nativos como turistas. Entretanto, era a primeira vez que, de fato, estava dentro de um deles. Chegara havia poucos dias na capital argentina, e aquele passeio me chamara a atenção pela possibilidade de conhecer, de forma prática e informativa, a região turística da cidade, os bairros centrais e os principais monumentos, avenidas e parques.

Ao embarcar no ônibus, com meu bilhete já pago, eu sabia que teria direito a 24 horas para me aventurar. Para maiores de 11 anos, o bilhete custa 990 pesos, equivalente a cerca de 100 reais (valor de novembro de 2018). Há ainda a opção de viajar pelo ônibus por 48 horas ao invés de apenas um dia, o que eleva o preço para 126 reais. O que significava que poderia desembarcar em quaisquer dos pontos do trajeto para visitar a localidade e retornar posteriormente ao ponto para embarcar em outro circular.

Eu tinha em minhas mãos o guia completo do trajeto. Tratava-se de três linhas diferentes do Bus, sendo duas praticamente a continuação uma da outra (Azul e Vermelha). O trecho em vermelho ainda tinha dois pontos de conexão para a Linha Verde, algo que me ajudou de certa forma a planejar meu roteiro à vontade.

Pra começar, a Linha Vermelha

Embarquei no ponto inicial da Linha Vermelha, ao lado das Galerías Pacífico, shopping do bairro central de San Nicolás. O Bus seguiu pela rua até a Avenida 9 de Julio, uma das maiores e mais importantes da cidade, onde está localizado o Obelisco, consagrado símbolo da capital portenha.

obelisco buenos aires

Nos assentos do veículo, é possível conectar um fone de ouvido, que reproduz explicações históricas do roteiro turístico. Os áudios estavam em diversos idiomas, como inglês, espanhol, português e francês, dentre outros. Em vários momentos, em busca de uma experiência mais sensorial, não me detive muito às transmissões, buscando ouvir os sons reais da cidade.

Não era a primeira vez que eu estava na 9 de Julio. Já caminhara por lá no dia anterior e pode-se dizer que ela reflete bem o modo de viver da cidade. Árvores nos canteiros centrais, faixas de ônibus e ciclovias são exemplos de espaços públicos que buscam promover a interação entre os habitantes e seus equipamentos urbanos. A capital está repleta de parques e de espaços verdes, bem como preza muito pelo transporte coletivo. O fato de o relevo portenho não ter muitos aclives e declives contribui para que a vida de qualquer ciclista aventureiro seja tranquila.

Do alto do ônibus, fica mais fácil observar a arquitetura conservada de Buenos Aires, muito semelhante à das capitais europeias. Caminhando, pedalando ou sobre um ônibus, é possível estar em uma grande metrópole sem se sentir sufocado pelos prédios.

O Bus seguiu seu caminho, saindo da 9 de Julio e continuando por uma das ruas de San Nicolás, chegando à Plaza San Martin, recanto ideal para piqueniques e caminhadas a qualquer horário do dia. A praça ainda oferece uma bela vista do bairro ao redor, sobretudo à Torre Monumental, em frente aos gramados de San Martin e à estação de trem e metrô chamada Retiro.

Pela Avenida del Libertador deixando o centro da cidade, o Bus chegava aos bairros de Palermo e Recoleta, dois dos mais almejados pelos turistas por sua grande quantidade de parques, bares, museus e restaurantes. Chegava a hora de descer do ônibus para a minha primeira escala. Desembarquei em frente ao monumento Floralis Generica, estrutura metálica que representa uma enorme flor, dotada de um sistema de abertura de suas pétalas diariamente, bem como seu fechamento à noite. A Floralis foi construída em 2002 pelo arquiteto Eduardo Catalano.

Passando para a Linha Verde

Após uma caminhada pelos parques que beiram a avenida e dividem os bairros de Recoleta e Palermo, cheguei enfim ao Malba, Museu de Arte Latinoamericano, onde encontra-se o quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral. O Malba era um ponto importante em meu roteiro de ônibus por ser o primeiro ponto de conexão entre as linhas vermelha e verde do circuito. Esperei menos de cinco minutos para embarcar na Linha Verde, esta mais focada nos bairros de Palermo e Belgrano, ao norte de Buenos Aires. Sendo o ponto inicial da linha, planejei seguir por todo o roteiro do circuito.

Não à toa, foi possivelmente um dos melhores trechos que passei no segundo andar do ônibus, que segundo meu mapa deveria serpentear ao redor dos bosques de Palermo, famoso conjunto de parques e praças da capital argentina. O primeiro ponto do circuito era o planetário, também nos arredores dos bosques.


Fonte: www.planetario.gob.ar

Entretanto, a Linha Verde não se restringia apenas aos bosques, permitindo aos viajantes uma vista panorâmica do Aeroparque Jorge Newbery, pelo qual eu chegara à capital. O Aeroparque é um dos dois aeroportos de Buenos Aires, localizado nas proximidades do centro da cidade, enquanto o Aeroporto Internacional de Ezeiza encontra-se mais afastado. Foi também possível uma longa jornada ao lado do Rio da Plata, o consagrado “mar” dos portenhos, que os distancia das terras uruguaias.

O fato é que não é permitido entrar no rio em grande parte de sua extensão, devido à poluição e contaminação. Desta forma, os “hermanos” se contentam em usufruir dele por meio da pesca. O Bus continuou à beira do rio ao longo de toda a Costanera Norte, região à beira-rio que se estende pelo norte de Buenos Aires. Por onde passávamos, os portenhos que pescavam ou que somente passeavam ao lado de seu leito acenavam para nós, desconstruindo de certa forma o estereótipo da frieza do povo argentino que muitos brasileiros dizem existir.

De volta à Linha Vermelha

A excursão ia de bem a melhor. Passamos ao lado do estádio de futebol do River Plate, do hipódromo e de outros parques de Palermo. Depois de quase uma hora de viagem, também ao redor do bairro, desembarquei para novamente utilizar a Linha Vermelha, no ponto em frente ao Rosedal, coração dos bosques de Palermo. Não pude deixar de fazer minha visita por aquela área verde entornada por pistas para bicicleta e triciclos. Repleto de gramados para piqueniques, bem como de restaurantes ao redor, o parque oferece aluguel de pedalinhos no lago e visitas às fontes e aos jardins que são a atração principal da maioria dos visitantes ao local.

Foto: Henderson Moret

Quando voltei ao circuito do ônibus turístico, o sol já brilhava intensamente, e no céu não restava sinal algum da intensa chuva de poucas horas antes. Desta vez, segui com a excursão no sentido contrário ao que viera, passando agora pelo bairro da Recoleta em direção ao centro. Uma vez de volta à 9 de Julio, a Linha Vermelha findou e deu espaço para o circuito Azul, ainda que eu nem tenha precisado sair do Bus: uma linha é continuação da outra.

Emendando da Linha Vermelha à Linha Azul

Tendo como ponto inicial o Obelisco, o ônibus segue pelos bairros de San Nicolás e Montserrat, passando por importantes monumentos políticos, como a Casa Rosada (sede da presidência da República) e o Congresso Federal. Como já estava há muito tempo sem comer, as horas já passavam das três da tarde e nem sequer almoçara ainda, desembarquei do circular no bairro de San Telmo, conhecido por sua feira de artesanato aos domingos.

Após um almoço não planejado no recomendável Lo de Néstor (Bolívar 548, tel. +54 11 4342-7588), bar e restaurante que homenageia o ex-presidente Néstor Kirchner, andei em direção ao Caminito, no bairro de La Boca, sul de Buenos Aires, passando pela famosa feira de San Telmo e pelo Parque Lezama. Na teoria, meu roteiro pelo ônibus turístico já se encerrara. Mas depois de passear pelo Caminito – uma pequena rua com casas coloridas e diversos restaurantes e centros comerciais –, avistei outro circular chegando ao ponto, de onde eu estava próximo. A tarde estava ensolarada, olhei para o mapa do roteiro turístico, percebendo que ainda não visitara a região por onde o circular, da Linha Azul, deveria passar. Pensei por alguns milésimos de segundo e decidi: como minhas 24 horas de direito ainda não haviam chegado ao fim…por que não?

Subi mais uma vez no Bus, agora percorrendo o bairro La Boca (inclusive passando ao lado do estádio do Boca Juniors) até chegar em Puerto Madero, região que é um verdadeiro contraste contemporâneo com a parte antiga da cidade. Localizado próximo ao Centro e à zona sul da capital, Puerto Madero é um dos bairros mais modernizados de Buenos Aires, com construções muito mais próximas das grandes metrópoles mundiais do que com a arquitetura secular que predomina na capital argentina. Entretanto essa não é a única característica que distingue a região: ali há a presença do Rio da Plata, do porto e da Reserva Ecológica Costanera Sur, áreas que regem a vida do bairro. Apesar de moderninho, Puerto Madero tem em seu parque vizinho a evidência de que a cidade preza por preservar sua natureza.

Quem desce do ônibus e caminha por ali, como eu fiz, descobre que a Reserva Ecológica é uma grande área verde implementada onde antes existiam escombros de demolições do antigo Puerto Madero. A região estava abandonada e o projeto da reserva deu uma nova cara ao local. Atualmente a Costanera Sur possui cerca de 350 hectares e é mais um ponto para os portenhos aproveitarem à beira do Rio da Plata, alugar bicicletas e observar a flora e fauna da Argentina.

Depois de praticamente um dia inteiro percorrendo os principais bairros sobre as rodas do Buenos Aires Bus, cuja velocidade chegou várias vezes a fazer voar meu chapéu de gringo brasileiro, passei a me sentir como se já fosse naturalizado argentino. A vontade de desfrutar de cada pequeno lugar daquela cidade parecia que jamais cessaria – e tive os dias seguintes para conhecer, com calma, parte dos lugares que vi antes, naquele passeio delicioso, do alto do segundo andar do ônibus amarelo.

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