Tranvía de Caballito

Tranvía histórico: um rolê de bonde pelas ruas de Caballito

Na esquina das ruas Emilio Mitre e José Bonifacio, no bairro portenho de Caballito, é comum ver se formar uma longa fila de crianças e velhinhos nos fins de semana. Entre um sorvete e outro, estes vovôs e seus netos esperam impacientes na calçada, esticando o pescoço para ver despontar no fundo da rua o tranvía, bondinho histórico desativado cuja única linha opera apenas aos sábados, domingos e feriados, de forma gratuita.

Tá certo, não somos mais criança – e ainda não somos vovôs! -, mas a gente se amarra num passeio pitoresco. E lá fomos nós fazer o tour num dia de verão de princípios de fevereiro.

Tranvía histórico: um rolê de bonde pelas ruas de Caballito

Até 1962 circulava pelas ruas de Buenos Aires um meio de transporte que quase não se vê mais por aí – nem aqui, nem no Brasil: os bondes. Quando, em 14 de julho 1863, foi inaugurada a primeira linha da Argentina, que ligava a estação de Retiro à Plaza de Mayo, os bondes funcionavam por tração a cavalo, depois passaram à energia elétrica, até que na década de 1960 ficou “decidido” que o meio era deficitário e não havia mais espaço para ele entre tantos ônibus, trens e automóveis.

Tranvía de caballito

Os primeiros a circular, a cavalo. Foto: Huellas de Buenos Aires.

Tranvía de caballito

Os últimos circularam em dezembro de 1962. Foto: Acervo Aquilino González Podestá

Mas um grupo de velhotes meio lunáticos e apaixonados pelos tranvias não engoliu essa história. Pouco tempo depois, se uniram para criar a Asociación Amigos del Tranvía, fizeram uma vaquinha e conseguiram comprar dois bondes, cada um na faixa de 7 mil dólares, reabilitando-os de volta às ruas já no início dos anos 1980, como atração recreativa.

Todo o trabalho de recuperação dos veículos foi feito na raça, pelos próprios membros da associação. Rapidamente, o esforço destes simpáticos e nostálgicos senhores foi ganhando o coração da comunidade, umas freiras polonesas doaram mais um bonde, uma empresa de Bruxelas doou outro, e atualmente a AAT conta com uma frota-coleção de cinco bondinhos recuperados, estacionados em um galpão em Caballito. O local só pode ser visitado uma vez ao ano, durante a Noche de los Museos, em outubro. “A prefeitura de Buenos Aires não nos ajuda com nada, mas também não incomoda, o que já é muito”, garantem, bem-humorados.

Tranvía de Caballito

Originário de Portugal, foi a primeira aquisição da AAT e é idêntico aos que a Compañía Lacroze de Buenos Aires usou de 1907 a 1939.

Quem espera na calçada para fazer o tour sobre trilhos nunca sabe qual veículo vai aparecer, já que os sócios costumam escolher aleatoriamente qual sairá da garagem. Naquela tarde de 2 de fevereiro de 2017, tive a honra de ocupar um dos 32 assentos de um tranvia de fabricação norte-americana com 90 anos de idade. Ao meu lado, sentou-se o senhor Aquilino González, arquiteto aposentado e um dos membros mais antigos da AAT, que ficou entusiasmado ao saber da minha origem curitibana. “Ainda existe aquele bondinho na rua XV?”, me pergunta. Batemos altos papos enquanto olhávamos o bairro passando vagarosamente pela janela.

Em algum momento da viagem, penso nos versos de Veinte poemas para ser leídos en el tranvía (20 poemas para ler no bonde”), livro de 1922 do argentino Oliverio Girondo:

“O ruído dos automóveis desbota as folhas das árvores. Em um quinto andar, alguém se crucifica ao abrir de par em par uma janela. Penso onde guardarei os quiosques, os semáforos, os transeuntes que me entram pelas pupilas. Tão pleno eu me sinto que tenho medo de rebentar. Deveria deixar algum lastro na calçada. Ao chegar à esquina, minha sombra se separa de mim e, de repente, se atira entre as rodas de um bonde.” (A tradução é minha, mas o original está aqui.)

Tranvía de Caballito

“Anglo”, o modelo em que andei.

Tranvía de Caballito

Não é uma graça?!

O tranvia é conduzido por um maquinista uniformizado e todos os passageiros recebem um boleto impresso, picotado como antigamente – ainda que seja apenas um gesto simbólico, já que a passagem não tem custo algum. Os membros da associação trabalham ali como voluntários. Para ajudar na manutenção desse projeto tão fofo, comprei por 70 pesos um calendário com fotos e histórias dos tranvias portenhos. O trajeto se estende por cerca de 15 quadras e dura poucos minutos, mas como aparentemente a turma foi com a minha cara, deixaram eu continuar embarcada e dar mais uma volta. Viva.

Tranvía de caballito

O trajeto, apesar de curto, é uma viagem no tempo.

É um passeio cheio de ternura e nostalgia, recomendado especialmente para quem curte trens ou está passando uns dias em Buenos Aires com crianças – aliás, o mais jovem membro da Asociación tem apenas 4 anos! Por que será que estes veículos despertam tanto fascínio em gente com idades extremas, como crianças pequenas e velhinhos?

O tranvía de Caballito funciona aos sábados e feriados das 16h às 19h30 e, aos domingos, das 10h às 13h e das 16h às 19h30. No verão (de dezembro a fevereiro), saem uma hora mais tarde (das 17h às 20h30). Os bondes partem a cada 20 minutos da única parada da linha, que fica na rua Emilio Mitre, 500 (esquina com José Bonifácio). A AAT conta ainda com uma sede social e biblioteca na rua Thompson, 502. Para consultas, escreva para info@tranvia.org.ar ou ligue (+54 11) 4431-1073.

Em tempo: fiz lindas fotos do tour, mas desgraçadamente perdi todas por não fazer backup do celular (qué boluda!). As imagens que ilustram estes post são do calendário que comprei do senhor Aquilino. O único registro meu é este vídeo abaixo, que por um mistério maravilhoso consegui recuperar.

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2 comentários

  1. Roseolanda

    Que me recomendas: usar táxi ou transfer do aeroporto ezeiza para Recoleta,onde hospedarei… meu voo chega mais ou menos 23:00

    • Túlio Bragança

      No nosso post sobre ezeiza e aeroparque damos todas as dicas. Nessa hora melhor transfer ou onibus executivo, nos posts tá mais explicadinho.

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