Feira de Mataderos

Domingo na Feira de Mataderos

Era véspera de primavera e pulamos cedo da cama no domingo. Tomamos um desjejum reforçado – com direito a medialunas argentinas e café brasileiro -, caminhamos até a Federico Lacroze e tomamos o ônibus 63, que nos deixaria na esquina das avenidas de los Corrales e Lisandro de la Torre, bem no coração da feira de Mataderos.

Há anos ouço falar dela, mas sempre achei que ficava longe demais do centro de Buenos Aires, e que tanto trabalho num domingo matutino não valeria a pena. Eu estava enganada, obviamente.

Domingo na Feira de Mataderos

Feira de Mataderos

Wiphala, a bandeira dos povos originários da América, presente em tudo.

Levamos quase uma hora de viagem em ônibus de linha, cruzando a cidade rumo ao sudoeste, até chegarmos ao bairro batizado em homenagem a um grande matadouro instalado ali em 1899 – homenagem nada singela, por sinal. O lugar, onde funcionavam o Mercado Nacional de Hacienda e o Frigorífico Municipal, era o centro da indústria da carne na capital argentina, e por algum tempo ficou conhecido com a Nueva Chicago.

Em 1986, quase uma década depois do fechamento do frigorífico, a região viu nascer ali essa feira imensa, que hoje chega a 700 barraquinhas, onde é possível comprar toda sorte de artesanato e comida típica de diversas regiões do país, como Tucumán, Santiago del Estero, Salta e a fronteiriça culinária paraguaia, com sua deliciosa chipa guazú. Como diz a Secretaria de Cultura, este é um lugar onde “o campo e a cidade se misturam”.

Feira de Mataderos

Flagramos essa “sensacional” tatuagem do santo Gauchito Gil.

Há duas feiras dentro da Feria de Mataderos. Uma, bastante popular e aparentemente voltada ao povo do bairro, que vende desde roupa usada a rolos de papel higiênico e outros badulaques baratinhos (nos arrependemos de não ter comprado aquela bicicleta por 400 pesos). Outra, um tanto mais turística, mas nada comparada às feiras de San Telmo ou da Recoleta. Aqui, o espírito gaúcho é o ponto alto da feira, em que abundam itens como ponchos, bombachas, cintas, artigos em couro, lã de ovelha, prata, cuias para mate, entre outras maravilhas.

O fuzuê rola até a noitinha, mas recomendo que você chegue ainda de manhã se quiser conhecer a fundo as histórias e tradições do interior do país. Em cada barraca recebemos uma verdadeira aula dos argentinos, orgulhosos de nos explicar sobre estilos musicais (gato, chacarera, chamamé, milonga), os tipos de facas, o que são boleadoras e quais as características do poncho güemesiano, entre outras curiosidades.

Conhecemos muitas figuras na feira, como o músico Hector del Valle, o “Gardel de los gauchos“, com mais de mil músicas compostas e 56 discos gravados. Figuras como o Dante, vendedor de facas que perdeu um avô na Primeira Guerra Mundial, o pai na Segunda e um irmão na das Malvinas. “Você conhece palavra pior do que ‘guerra’?”, me pergunta, contando que foi o ofício do cuchillo que lhe salvou da depressão.

Surpresa maior foi conhecer o Sergio, paranaense que há décadas mora em Buenos Aires. De terça a quinta-feira é barbeiro, pedicuro e massagista num shopping de Palermo; aos domingos, serve café colombiano na feira de Mataderos. Enquanto provávamos o expresso preparado por ele, conhecemos um peruano radicado há 30 anos na Europa que, nascido Reinaldo, resolveu mudar de nome para Túpac Amaru, em homenagem ao último Inca rebelde.

Feira de Mataderos

Malvinas, eterna luta dos argentinos.

Nenhum lugar tem realmente graça sem as pessoas e as histórias que elas contam. Em Mataderos, compramos queijos coloniais, mel silvestre santiagueño, doce de marmelo de San Juan, um cuchillo e uma cuia, mas nada teve mais valor do que as conversas que tivemos e as fotografias que levamos.

Antes de tomar o 63 de volta a Colegiales, já com o sol se pondo e o vento virando, paramos para ver um grupo dançar chacareras e zambas num canto da praça maior, com música ao vivo. Achei emocionante ver jovens e idosos bailando e chacoalhando o lencinho no ar, numa dança de olhares, gestos e cortesia.

Os músicos se apresentavam a la gorra, ou seja, passando o chapéu, e uma líder comunitária aproveitou o ensejo para esbravejar no microfone contra os organizadores da feira, que parecem querer desalojar a turma dali. Foi aplaudida por todos, e o baile seguiu.

Por fim, subimos no coletivo lotado e viajamos em pé durante mais de uma hora até chegarmos, exaustos e felizes, em casa. A Feira de Mataderos acontece sempre aos domingos, das 11h às 20h, de março a dezembro. Em janeiro e fevereiro, somente nas noites de sábado. Não ache que é longe demais, nem tenha a arrogância de pensar que já viu tudo nas feiras portenhas urbanas. Não viu, não. O campo é outra coisa. É bem diferente da tradicional Feira de San Telmo, que também acontece aos domingos.

São vários ônibus que levam até Mataderos: 126 se você estiver em San Telmo. 92 se estiver na Recoleta e região do Abasto, 55 para Palermo e 63 para Belgrano, Colegiales e Chacarita.

A seguir, uma pequena galeria do fotógrafo (e marido) Elisandro Dalcin:

Feira de Mataderos

Feira de Mataderos

Feira de Mataderos

Feira de Mataderos

Feira de Mataderos

Feira de Mataderos

Feira de Mataderos

A Feira de Mataderos aparece no vídeo do AiresBuenosTV sobre Pontos Turísticos fora do circuito tradicional de Buenos Aires. Confira abaixo:

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7 comentários

  1. Fotazas y lindo artículo. Esa es una feria para nosotros argentinos, para recordarnos de donde venimos, qué bueno que les gustó. No sé si tiene interés para el turista tradicional…Pero ahora veo que sí.
    El Gauchito Gil, agradecido

    • Mariana Sanchez
      Author

      Gracias, Edu! Nos encantó la feria y creo que puede interesar a muchos turistas, sí!

  2. Graciane

    Sou louca pra ir nessa feira,ano passado tentamos ir duas vezes.Na primeira vez desabou um temporal e choveu o resto do dia então voltamos do meio do caminho e na segunda era um feriado de uma santa que agora ñ me recordo qual mas garantiram que a feira ia funcionar e lá fomos nós mas qdo chegamos nada de feira e daí um cara vestido de gaúcho explicou que justamente no dia daquela santa a feira ñ funciona….o tristeza mas qdo voltar a Bue faço questão de ir lá.

  3. RENAN CAMPOS

    Tenho muita vontade de ir nessa feira. Já estive duas vezes para ir nessa feira, sem sucesso. A primeira vez foi no mês de novembro, estava chovendo e não teve a feira. A segunda vez foi no mês de janeiro, a feira não funcionou em razão das férias. Vocês sabem quais períodos de janeiro a feira não funciona? Obrigado!

  4. FabricioNV

    Consigo fazer as duas feiras no mesmo dia? San Telmo e Matadero? Se chegar cedo em San Telmo e depois ir para Matadero?

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