Mendoza

Final de semana em Mendoza

Estive em Mendoza pela primeira vez em 2005 e me apaixonei por esta cidade do oeste argentino. Agora, dez anos depois, tive a chance de voltar a ela e renovar meus votos de amor pela terrinha do Malbec.

Foi meio insano viajar de ônibus mais de mil quilômetros para passar apenas dois dias e meio lá, mas era só o que eu tinha. A seguir, um pequeno diário de viagem para quem também tem pouco tempo e quer aproveitá-lo ao máximo.

Final de semana em Mendoza

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Como ir de Buenos Aires para Mendoza de ônibus?

Se a grana está curta e você não tem como voar até Mendoza, o jeito é fazer como eu e comprar uma passagem de ônibus. Saindo do terminal de Retiro, em Buenos Aires, são cerca de 15 horas na estrada. Há várias empresas operando o trecho, mas a dica de quem viajou pela Cata Internacional (na ida) e pela Chevallier (na volta) é que a segunda é infinitamente superior: os ônibus são melhores, as poltronas mais espaçosas, o banheiro é limpo e há uma parada para o café da manhã, que já está incluso no preço. (Na ida, pela Cata, não havia parada alguma e o serviço de bordo se resumia a dois bolinhos mequetrefes, um deles com data de validade passada.) Meus amigos, que tinham ido um dia antes, viajaram pela Rapido Internacional e também acharam una buesta.

Onde ficar em Mendoza?

Como uma amiga me convidou para ficar neste apartamento que ela já tinha alugado pelo AirB&B, não precisei ir atrás de hospedagem, mas se você está buscando hotéis em Mendoza, aqui tem algumas opções.

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A primeira surpresa da viagem: nosso apê ficava no histórico edifício Pasaje San Martín, o prédio mais “alto” de Mendoza até 1954. As aspas estão aí porque esta construção de 1926 tem apenas quatro andares, mas como na época a população ainda estava morrendo de medo do terremoto de 1861, que destruiu a cidade, o Pasaje San Martín era praticamente um arranha-céu. Foi um dos primeiros resistentes a sismos e um dos pioneiros no uso de elevadores – daqueles antigões, de gaiola de ferro e piso de madeira, como são até hoje! A gente adorou ficar lá, porque o apartamento, apesar de velhinho, era muito charmoso, tinha tudo (wi-fi, cozinha equipada, banheiro bom e camas excelentes), além de estar localizado no ponto mais central da cidade, na Avenida San Martín com o Paseo Sarmiento.

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O Pasaje San Martín foi declarado Patrimônio Cultural da Província de Mendonza em 1997 e, junto com o Edifício Gómez, que fica a passos dali, é um dos marcos da arquitetura mendocina. Mesmo que você não fique hospedado aqui, vale a pena entrar na galeria térrea para olhar suas clarabóias de vitrais franceses coloridos e decorados com motivos florais. Um beleza.

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Jantar no Patrona para brindar à primeira noite. (Foto: divulgação)

Quinta-feira

Cheguei à rodoviária de Mendoza às 13h e, embora fosse tentador partir para um tour pelas bodegas da região, a última coisa que eu queria era entrar de novo num ônibus depois de 15 horas chacoalhando. Preferi descansar, escrever e ler na terraza do apartamento. Na hora do almoço, como meus amigos tinham pressa para fazer um tour, entramos no primeiro restaurante que vimos, na peatonal Paseo Sarmiento, e quando sacamos que seria a maior furada já era tarde: evite comer por ali, já que os menus turísticos não são nada baratos, tampouco bons. Pra compensar, à noite decidimos caminhar um pouco mais e escolhemos um restaurante delicioso, o Patrona (9 de Julio, 656). Pedimos empanadas de entraña (um corte tipo a nossa “maminha”) com queijo provolone e uma tábua de frios abundante e espetacular, além de vinho tinto mendocino. Os pãezinhos com patê de beterraba também estavam divinos. O Patrona não é caro (pagamos 130 pesos cada um), o atendimento é ótimo e adoramos o clima do lugar.

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A linda Plaza España.

Sexta-feira

Seria meu único dia inteiro na cidade, então decidi pular cedo da cama, antes das 7h30. Meus amigos queriam conhecer a cordilheira dos Andes, mas eu estava fazendo qualquer negócio pra não ter de passar muito tempo num ônibus de novo. Enquanto eles partiram para o tour Alta Montaña, decidi zanzar pela cidade e tentar reconhecer o território, uma década depois de ter passado por ali. Porém, só conseguia me lembrar da Plaza España, com seus lindos mosaicos andaluzes.

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Um achado.

De lá, parei pra tomar meu desjejum num lugar estupendo, a Bröd Panadería (calle Chile, 894), que descobri ao digitar no google “mejores cafés de Mendoza“. Sentei no pátio externo pra tomar um sol e pedi o combo Café expresso + tostadas (50 pesos), que veio com queso crema e mermelada de maçã com frutas vermelhas. Uma das melhores geleias que provei na vida! Tudo estava delicioso, mas só o lugar já vale a visita.

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Nem liguei que tostou demais.

No mesmo espaço funciona a vinoteca Winery, onde é possível encontrar uma cuidadosa seleção de vinhos argentinos – há uma sala só para brancos e espumantes, mas a maior parte é de tintos, mesmo. Antes, funcionava ali ao lado o famoso restaurante Nadia O.F., mas soube que ele fechou há 4 meses e agora só abre para eventos.

MendozaSegui caminhando, decidida a conhecer o Parque General San Martín. Cheguei à Plaza Independencia para alugar uma bicicleta pelo sistema de transporte público En La Bici, que é gratuito, mas como era feriado (Día de la Soberanía Nacional), o lugar estava fechado. Fui a pé.

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O Parque San Martín é um oásis projetado pelo paisagista francês Carlos Thays, o mesmo que fez o jardim botânico de Buenos Aires. Os mendocinos adoram praticar esportes e havia muita gente correndo, pedalando e até praticando canoagem no lago artificial, mas eu preferi sentar na sombra dos pergolados e olhar o contorno da pré-cordilheira. Ali também há várias esculturas e fontes, um roseiral muito bem cuidado, plátanos, palmeiras e até araucárias (para emoción de uma curitibana saudosa). São 307 hectares cultivados com espécies trazidas do mundo todo.

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A propriedade da Nieto Senetiner.

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À tarde, por $ 240 pesos, contratei um tour da Mendoza Viajes por duas bodegas e uma aceitería da região, num passeio que começou às 14h e só terminou às 18h30. Recomendo muito! A primeira bodega visitada pelo grupo (em van, com guia em espanhol) foi a Nieto Senetiner, que está na região de Luján de Cuyo desde 1888. Além de conhecer toda a cadeia vinícola desta família de imigrantes italianos, que produz 16 milhões de garrafas por ano, fizemos três degustações: um Sauvignon Blanc Emilia e dois Malbecs da linha Don Nicanor, cuja única diferença era o tempo de colheita. Comprei uma garrafa do meu preferido, um Colheita Tardia safra 2011, e seguimos para a segunda parada, a Bodega y Cavas de Weinert.

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O lugar existe desde 1890, mas foi comprado por um brasileiro na década de 1970, que trabalhou com o célebre Raúl de la Mota (considerado o melhor enólogo argentino do século 20) e produz alguns dos melhores vinhos de Luján de Cuyo, com foco em exportação. Achei impressionante passear pelos corredores subterrâneos da bodega, a 7 metros debaixo da terra, com paredes de pedra que conservam a temperatura em 12 graus. Lá dentro está o terceiro maior tonel do país, fabricado na Alemanha na década de 1920 e capaz de guardar 44 mil litros de vinho. Degustamos três variedades ótimas, mas preferi guardar meus parcos pesos para comprar um bom azeite de oliva na Olivícola Laur, que visitamos em seguida, no departamento de Maipú.

MendozaAzeite de oliva deve ser a coisa que eu mais consumo na vida, e fiz um bom negócio comprando uma garrafa do premiado Gran Mendoza, um extra-virgem com 0,5% de teor de acidez feito com um blend de azeitonas Arauco (Argentina) e Empeltre (Espanha). Passeamos pela plantação de oliveiras centenárias (que, para oliveiras, até que são bem jovens) e descobrimos que cada árvore pode dar apenas 200 quilos de azeitona por ano. Considerando que são necessários de 8 a 10 quilos de azeitona para produzir um único litro de azeite, é bem pouco, daí o preço elevado da iguaria. Fundada em 1906 por um francês, esta Olivícola também está desenvolvendo sua primeira linha de aceto balsâmico original tipo Modena, em convênio com a Itália. Como o aceto deve ficar 15 anos envelhecendo em barril de madeira, a primeira produção só deverá sair ao mercado em 2029!

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No meu grupo, na van, havia um francês de Toulosse bastante impressionado com a qualidade dos produtos argentinos, e gerou polêmica ao dizer que, hoje, se produz vinhos melhores na Argentina do que na França. Para descontrair, a guia do passeio lembrou a importância de preservamos a Terra: “Afinal de contas, é o único planeta até hoje que produz vinho”.

À noite, eu e meus amigos jantamos no El Palenque (Aristides Villanueva 287), espécie de bodegón com um toquezinho gourmet. Pedimos peixe com legumes, salada e…. suco de laranja! Porque era preciso dar uma equilibrada no teor alcoólico e estar bem para o dia seguinte, certo?

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Eu, meus camaradinhas e a fofa da Inés, da Baccus Biking.

Sábado

Sempre quis fazer um tour pelos vinhedos mendocinos de bicicleta, e meu último dia na cidade me pareceu a ocasião perfeita para isso. Quase todos meus amigos haviam recomendado a Baccus Biking, então nem pensei duas vezes: telefonei na véspera para a Inés, dona da empresa, e ela me explicou direitinho como seria o passeio. É o mesmo passeio que o Túlio e a Paula fizeram em 2013 no post Tour de bike em Mendoza, mas acabamos fazendo um roteiro diferente.

Às 9h caminhamos até a esquina das calles San Juan e Alem, no centro de Mendoza, e pegamos o ônibus 15 (tem que estar escrito “G1” na placa) rumo a Chacras de Coria, região dentro do departamento de Luján de Cuyo, considerada a terra dos vinhos Malbec. (Lembre-se que para pegar ônibus aqui é preciso ter comprado o cartão de transporte local, vendido em qualquer kiosko por 10 pesos.) Em 40 minutos, estávamos batendo na porta da Baccus Biking, na calle Mitre, onde fomos recebidos pela queridíssima Inés. Por 180 pesos cada um, alugamos as bikes até as 18h, e ela ainda montou um roteirinho pra nós, passando por três vinícolas que escolhemos juntos (total, uns 13 km).

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Eu já conhecia a Nieto Senetiner, mas meus amigos ainda não. Como a bodega tem parceria com a Baccus e não teríamos de pagar nada a mais pra visitá-la, fui de novo. O caminho até lá não era longe, só que tem um bom trecho em estrada de terra (de pedra, na verdade), e achamos complicado pedalar ali. Também tivemos que pegar um trechinho de rodovia, pelo acostamento. O mapa que a Inés entrega não é exatamente preciso, mas com um pouco de boa vontade e disposição você chega lá (no nosso caso, 15 minutos atrasados).

Da Nieto Senetiner pedalamos em busca de um lugar hermoso pra gente fazer um piquenique, mas como a fome era grande, acabamos devorando nossos sanduíches de miga na primeira pracinha que encontramos, no meio de uma rotatória, com uma imagem da Nossa Senhora Aparecida no meio. De lá, fomos conhecer a bodega do Carmelo Patti, que se revelou a mais incrível de toda a viagem.

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A fachada da bodega de Carmelo Patti.

Enquanto as vinícolas vizinhas têm entradas bem sinalizadas e uma bela arquitetura, a de Carmelo não tem nem placa. Chegamos lá pelo endereço, tocamos a campainha e fomos recebidos pelo próprio, que além de tocar o negócio sozinho é também um experiente enólogo. Mais do que é isso: Carmelo é um artista e um apaixonado pelo que faz desde os anos 1970, por isso se tornou uma lenda na Argentina. Ao contrário de muitas marcas famosas, que tratam o cultivo e a produção do vinho como um grande negócio industrial, ele se dedica ao ofício artesanalmente – até os rótulos são colados um a um, sem adesivo, e é ele quem inspeciona cada uma das 55 mil garrafas produzidas por ano, com a ajuda do seu único funcionário.

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O mestre: simplicidade, conhecimento e nenhuma pressa.

O diferencial da bodega Carmelo Patti é que, aqui, você só encontra vinhos de guarda. A maioria dos vinhos lançados no mercado são para consumo imediato, mas só porque vivemos num mundo capitalista que acredita que “tempo é dinheiro”, porque todo mundo sabe que um bom vinho fica ainda melhor quando envelhece. Só que nem tudo é tão simples: se envelhecer muito tempo em barris de carvalho, a bebida pode pegar muito o sabor da madeira e gerar aromas secundários não desejados. Na contramão das tendências de mercado, Carmelo prefere conservar o líquido tinto em barris por apenas 2 a 4 anos e, depois, esperá-lo evoluir lentamente, na própria garrafa, antes de comercializá-lo. Às vezes, isso pode levar muitos e muitos anos (soubemos que ele tem uma safra de Cabernet Sauvignon “descansando” desde 2002), mas existe um minucioso estudo por trás dessa técnica e o resultado costuma impressionar até os críticos mais exigentes. Não à toa a Carmelo Patti é considerada uma “vinícola de autor” e seus “cult-wines” são mundialmente premiados. O melhor de tudo é que seu produtor é um cara simples e sem frescura, que adora receber as pessoas com suas histórias divertidas e vinhos maravilhosos. Amor, paciência e muita personalidade são, definitivamente, as palavras-chaves do sucesso da sua bodega.

A ideia era terminar o tour ciclístico na Pulmary, uma vinícola pequena que só produz vinhos orgânicos, mas era impossível se despedir do adorável Carmelo Patti. Quando olhamos no relógio, vimos que só dava tempo de tomar um ônibus para Mendoza e tentar jantar antes de encarar os 1.190 km de volta até Buenos Aires. Não seria dessa vez que a gente conheceria o super-recomendado restaurante Maria Antonieta, mas ainda tivemos tempo de uma refeição linda e leve na Bröd Panadería (tão linda que fiz questão de clicar os três pratos):

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Minha sopa de abóbora com sementes da própria.

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O salmão com batata e espinafre que meu amigo pediu e nos matou de inveja.

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A saladinha fresca e superlight da minha amiga.

Desembarcamos no terminal de Retiro às 11h de domingo. Exaustos, felizes, com algumas garrafas na mochila e cheios de bons recuerdos de Mendoza, cidade que devemos visitar de novo algum dia.

Veja mais posts do Aires Buenos sobre Mendoza.

Veja posts sobre Salta, Jujuy, Chile, Uruguai e outros países em Outros Destinos.

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2 comentários

  1. Adorei as dicas, anotando tudo! Soube que os tours e as refeições em MDZ são bastante caros, por isso estou coletando bem suas informações. Obrigada.

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