Maldita Milonga, uma experiência

Uma portinha sem placa na calle Perú, entre a Mexico e a Venezuela. É até lá que você deve se dirigir se esta for sua primeira incursão ao maravilhoso mundo do tango.

Existem em torno de 150 milongas rolando toda semana em Buenos Aires, mas esta, divertidamente batizada de “Maldita Milonga”, é uma bendita oportunidade para os pernas-de-pau 100% neófitos no compasso dois por quatro – tipo: eu.

Digo isso porque, diferente de algumas milongas mais tradicionalistas, onde é preciso respeitar certas regras de etiqueta tangueira, esta é bastante informal, descontraída e amigável para principiantes.

 Maldita Milonga, uma experiência

Maldita MilongaA baladinha acontece toda quarta-feira e todo domingo (às segundas ela se chama “Bendita Milonga”) em um antigo casarão de San Telmo, onde fica o Buenos Ayres Club. Depois de subir uma escadaria íngreme e pagar 80 pesos para entrar, você vai dar com um salão amplo e pouco iluminado, onde mesinhas contornam uma grande pista.

O “esquenta” começa às 21h com uma aula comandada pela bailarina Laura Heredia e outros dois instrutores (entre eles a queridíssima brasileira Gisele Teixeira, do Aquí me quedo). Os professores dão a aula de tênis mesmo, sem nenhuma cerimônia. Depois, quando o baile começa pra valer, eles escapam discretamente para vestir pisantes mais apropriados. (Descobri, recentemente, que sapatos de tango não são feitos para desviar cocô de cachorro na rua – e aqui tem muito! -, mas pra pisar macio no salão. Faz sentido.)

Maldita MilongaRapidamente, os instrutores organizam dois grupos: um para iniciantes, outro para alunos intermediários ou avançados. As orientações são dadas em espanhol, com tradução para o inglês. Começa-se com uma caminhada em círculo, no ritmo da música, aparentemente muito simples. Quando os casais se formam, aí é que a coisa complica. Norte-americanos sairão do compasso, brasileiros rebolarão, nórdicos (e curitibanos) tentarão não parecer duros demais. O importante é se movimentar sempre em sentido anti-horário, para evitar colisões.

Olhando de fora, parece que é preciso ser vidente para acertar o passo e não pisar no pé do parceiro, já que cada um levanta a perna quando quer, gira quando quer e faz o que lhe der na telha (o tango é uma dança cheia de códigos, mas é até bastante livre). Porém, não se trata de adivinhação: o que está em jogo é cumplicidade, entrega, um pacto entre os dançarinos. Quem conduz deve saber o que quer e deixar isso claro, para permitir que o(a) outro(a) saiba como dançar. Conduzir, portanto, é sempre mais difícil. Mas se você é do tipo controlador, inquieto ou ansioso demais, também terá problemas em se deixar levar (e aqui o tango ensina a todos nós uma linda lição).

Conheci a Maldita Milonga no ano passado e, nesta segunda incursão, achei que estava na hora de aprender alguma coisa. Quando vi, já estava nos braços de um intercambista muy elegante do Mali, de um portenho francamente desmunhecado, de um senhor de setenta anos com uma gravatinha esquisita e até mesmo de mulheres. Porque, a cada música, trocam-se os pares, o que é ótimo quando você está abraçado com alguém com o maior bafo de bode, por exemplo.

Maldita Milonga
Foto: Eduardo Baró

Terminada a aula, vem o melhor da noite: o show da El Afronte, uma orquestaorquesta mesmo, sem o R) típica de tango, com 10 músicos no palco. É um verdadeiro luxo ir a uma milonga com música ao vivo, e este é outro motivo pelo qual a Maldita e a Bendita são tão especiais. Enquanto violinos, bandoneones e piano tocam clássicos e composições próprias, embaladas pela voz de Marco Bellini, dezenas de casais rodopiam no dancefloor – os principiantes no centro, os mais experientes do lado de fora, segundo a etiqueta. Eu, nessa hora, só fiquei olhando e curtindo a orquestra, mesmo.

Quando o show acaba entra o DJ. Nas milongas, os discotecários de tango costumam ser identificados pelo tipo de “cortina” que tocam. Cortina, neste caso, vêm a ser as músicas que rolam entre um tango e outro, só pra turma dar uma desbaratinada, ajeitar o band-aid no calcanhar e trocar de parceiro. Já fui numa milonga cujas cortinas eram canções de jazz dos anos 50. Noutra, todas as faixas eram do Led Zeppelin. Nesta, de quarta-feira, o DJ foi mais eclético e misturou The Cure com US3, tascando até um indefectível Hit the Road Jack. Mas nem se empolgue muito, viu, porque antes de você começar a dançar o DJ já fechou a cortina com outro tango. Sim, os intervalos são muito breves, porque afinal ninguém está ali pra ouvir Whole Lotta Love.

Maldita Milonga
Foto: Eduardo Baró

Quando a baladinha milongueira estava quase no fim e eu já ia pela terceira ou quarta taça de malbec nacional, fui tirada pra dançar. Nas milongas tradicionais, o convite se dá com o famoso “cabeceo” (movimento sutil de cabeça e troca de olhares que, se não for correspondido, pelo menos não chega a ser humilhante), mas na Maldita a coisa é mais explícita, mesmo. Depois de dançar com uma multiplicidade de pernetas naquela noite, por fim tive a honra de ser conduzida por alguém que realmente entendia do assunto.

Mas quem disse que eu conseguia relaxar e deixar a dança fluir? O tempo todo me via querendo antecipar o passo, inventar coisas mirabolantes sem nem saber o básico. Alguns trancos depois, aceitei o conselho do meu parceiro: “feche os olhos e confie”. Não é que funcionou? Por instantes, apenas três ou quatro minutos, tive a ilusão de saber bailar tango. E foi nesse clima de leveza e liberdade que desci, saltitando, a escadaria íngreme que dá para a calle Perú. Com a certeza de que, semana que vem, devo voltar.

Maldita Milonga
Calle Perú 571.
Entrada: 80 pesos, somente dinheiro.
Todas as quartas-feiras, 21h

Neste site você encontra a lista das principais milongas de Buenos Aires. Dá para ir cada dia numa, sem repetir. Vá lá e depois conte pra gente como foi essa experiência.

Para espetáculos mais tradicionais, os chamados tangos cena show, veja nosso post sobre os Shows de Tango em Buenos Aires.

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20 comentários em “Maldita Milonga, uma experiência”

  1. Alguém sabe me informar algum lugar em Buenos Aires para dançar outros ritmos? Por exemplo salsa, zouk e bachata.. Sou dançarina no Brasil e tenho muito vontade de ir a um baile em outro lugar!!

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  2. Não gostei nenhum pouco. Os horários todos atrasados, atendimento ruim, típico lugar “pega turista”. Não aconselho.

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    • Nossa, Vanessa. Q pena. Todo mundo que vai lá comenta o contrário pra gente.

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  3. Consigo pegar um táxi com facilidade para voltar para o hotel?
    Parece que a região não é muito segura para voltar caminhando.
    Obrigado

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    • Sim, pode pegar sim. San Telmo é bem boemio de noite, só ficar ligado.

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        • Na verdade não! Os taxis podem passar numa avenida que fica a duas quadras, e não é uma região segura para andar de noite/madrugada.

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    • até bem tarde mesmo, meia noite e olhe lá

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